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QUATREPAR

Foto do escritor: Rita Escórcio
Rita Escórcio
há 14 minutos
3 min de leitura

Renatinha fora surpreendida com o que o marido lhe dissera sem preâmbulos.

- A partir de amanhã, não moro mais nesta casa.

- Nós vamos mudar? – perguntou, entre assustada e atônita.

- Sim, eu me mudo, agora. A gente não vai mais morar juntos.

O casamento foi rompido após sete anos. Dizem ser essa a data prevista para a primeira crise de um casal. E para ela, a crise veio com tudo a que tinha direito: traição , xingamentos, acusações, chororô etc. Estava sem entender o que estava acontecendo, ou melhor, era ela mesmo muito tonta para não ter sentido o alerta de que a relação estava em ruínas. O marido não era o mesmo; pouco chamego, pouco tempo em casa, irritadiço sempre.

- A gente pode tentar... – estava falando sozinha. A porta foi batida com força.

- É, ele não volta – resignou-se.

Renatinha jogou-se na cama e chorou todas as lágrimas. Ouvia o telefone chamar insistentemente. Sem coragem para nada, deixou que passasse a sexta-feira, o sábado e o domingo sem ter contato com ninguém.

No entanto, a vida não para esperando que o sofrimento de alguma pessoa cesse. Era preciso reagir. De olhos inchados, uma desiludida jovem chegou ao trabalho. Não queria conversar nem interagir com quem quer que fosse. esse isolamento perdurou por mais de uma semana até que as colegas de sala resolveram intervir.

- Onde é que já se viu sofrer por um traste como Jaílson?! Isso nunca. – ponderou Risoleta.

Desde que soubera do rompimento entre o casal, a amiga dedicou-se muito a resgatar Renatinha do fundo do poço.

A certeza de que a relação era mesmo irreconciliável, visto que um advogado já propusera separação consensual, fez com que Risoleta fosse elevada à condição de confidente-mor da inconsolável amiga. O lenga-lenga era sempre o mesmo. Insuportável.

Realmente, não dava mais para eles. Melhor assim…

Voltar ou não voltar a morar na casa dos pais era o que mais inquietava a recém-separada.

Amparada pelo aconselhamento a amiga, Renatinha decidira que ficar pagando o aluguel era mais confortável para enfrentar esta situação. Podia se isolar, chorar, espernear, não ver ninguém nem de sua família nem da família de Jailson.

A crise passaria. Era essa a sua única certeza. Sabia que podia contar com o apoio das colegas de trabalho. Passara a receber convite, os mais variados possíveis. Um deles, especificamente, chamou-lhe muito a atenção. Mesmo o celular no modo travado, viu, pelo visor, uma parte dado recado: “bora quatrepar, hoje”. Imediatamente, foi ver o que dizia o restante da mensagem.

“Bora quatrepar, hoje. Esteja pronta. Passarei aí, às nove da noite”

- Quatrepar? – falou em voz alta.

- Que diabos seria isso? – encafifou-se.

Várias conjecturas surgiram. Renatinha acordou do devaneio. Olhou-se no espelho. Apesar do estrago psicológico, gostou do que viu. Era só “dar um tapa na aparência” e esperar a hora de “quatrepar”. Antes, riu bastante desse nome, totalmente desconhecido para ela.

Quatrepar seria bom? Com quem iria quatrepar? Essa amiga era uma doidivanas mesmo...

Pior do que estava não dava pra ficar. Resolveu colocar “ok” como resposta e aguardar a noite chegar para, finalmente, saber como é com quem iria quatrepar. Expectativas foram criadas.

A experiência de quatrepar fez com que renascesse um mulher bem mais conscienciosa do poder que tinha. Durante a noite, seduziu e também se deixou seduzir com olhares, insinuações, piscadelas com a certeza que um relacionamento quando acaba não é o fim do mundo. Pode ser a descoberta de outros mundos, onde as surpresas podem fazer mais bem do que o marasmo em que vivia no desgastado casamento com Jailson.

Após essa noite, quando perguntam à Renatinha se ela aconselha alguém a quatrepar, a resposta é a de que esse foi um dos melhores convites que recebeu. Até aconselha a quem receber, que não recuse.

Caso alguém lhe convidar para quatrepar, vá. Vá, sem medo, mas não conte os pormenores para ninguém. Que cada um saiba sair dos imbróglios e, com ou sem ajuda, rearranje uma maneira de se fazer feliz. Não se vem a este mundo apenas para sofrer. E, se possível, mantenha sigilo. Felicidade alheia incomoda. O que não se sabe, ninguém estraga.

Na primeira ou próxima oportunidade que surgir o convite, QUATREPE.


 
 

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