
QUERENÇA x AUSÊNCIA

Definitivamente, nasci em época errada. Vivo doente. Ou sofro de querença ou de ausências. Em relação à primeira doença, essa é só encantamento, deslumbramento e esperança. Quando você elege alguém para dele se enamorar, a cegueira lhe atinge de tal maneira que é difícil discernir o real do imaginário. O desejo passa a ser o tempero da relação e compromete tanto a parte física quanto a espiritual; isso além de comprometer sua vida futura, pois a cegueira impede a pessoa que sofre de querença de enxergar novos e melhores pretendentes.
A vida de quem está adoentado(a) de querença gira em torno do ser amado. Tudo é para ele/ela. As horas ficam reduzidas, há mais capricho no arrumamento do corpo, mais perfumação, um endoidecer em querer estar junto e um sem número de atenção para manter esse desejo. E quem está fora não compreende o motivo para essa euforia desenfreada. Os que já viveram esta fase esquecem completamente o que é estar apaixonado(a). Esses até criticam os arroubos cometidos em nome desse sentimento tão pouco valorizado, nos dias de hoje. Digo pouco valorizado porque, muitas vezes, a troca de benquerença acontece num piscar de olhos. Esse piscar de olhos é onde mora o perigo. Cuide bem de seu amor. Caso não confie muito nele, talvez baste uma piscadela e, sem maiores motivos, adeus benquerença, visto que é muito comum você se deparar com o rompimento de relações que você jurava serem eternas, mas que de eterna não tinha nada mesmo, apenas as promessas. Imediatamente, após o rompimento unilateral, o novato na relação é chamado imediatamente de “amor”, como se amor não fosse uma edificação difícil de ser erigida e não custasse tempo e demora para ficar pronta, sendo que, às vezes, nem pronta fica, pois se houver descuido, a construção desmorona.
Amor? Ah, meu Deus! Não lembro de ter chamado alguém assim. O mais comum era chamar meus queridos envolventes ou pelo nome mesmo ou usando o pronome de tratamento que acho delicado que é o “você”. E, caso fosse falar dele estando ele ausente, preferia citar o nome de batismo ou algum apelido carinhoso que costumo colocar em quem eu quero bem. Amor? Amor mesmo só chamo a quem eu gerei e que serei responsável por ele até o fim de meus dias.
Em relação à primeira doença, nela eu me demoro muito. E o período que gasto na benquerença faz mais bem ao outro que qualquer relação passageira que ele possa ter. Tenho certeza de que ele nunca vai ser amado por outra pessoa como foi/é amado por mim. Se não for tudo intenso, dispenso.
Já em relação a outra doença que é a ausência; eu me machuco, mas não reclamo. Cada um sabe o que quer e onde quer ficar. Se alguém opta em querer borboletear em relações passageiras, não vai ser o meu gostar para com ele que vá causar algum impedimento. Agora, se a ausência me tiver causando algum dano, seja ele físico ou psicológico, saio da vida da criatura sem justificativa nenhuma. Não vou ficar num vaivém com ele ou até mesmo ser divã de malandro de jeito nenhum. Assim como cada um sabe o que faz, que essa pessoa saiba arcar com as consequências de suas ausências. Quando tenho benquerença, durante todo o tempo que durar o relacionamento, aprendo a conviver com essas faltas e aprendo a processá-las internamente sem nenhum alarde. De repente, tudo flui.
Mesmos nos tempos de hoje, ama mais quem sabe conviver com as benquerenças e com as ausências, sem exigir fidelidade e nem constância. As duas únicas certezas que tenho é a de que a minha ausência vai fazer saudade para todo o sempre nele e a de que quem me abandonou ficará na minha pasta do esquecimento para sempre. O que passou, passou. Hoje, quem eu escolher para amar terá um amor para ser sua benquerença por tempo indefinido ou ser apenas uma página esquecida em minha pasta de esquecimento, se for praticar mais ausência que benquerença.